Rica em gorduras do bem, ela combate a
obesidade, dá um chega pra lá no diabete e ainda livra o coração de entraves
por Thaís Manarini / design Ana Paula
Megda / fotos Alex Silva
No universo da nutrição, algumas parcerias são conhecidas
por sua sinergia. É o caso do azeite de oliva e do óleo de linhaça, como
comprova um novo estudo do Laboratório de Sinalização Celular da Faculdade de
Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, no interior
paulista. Segundo o trabalho, pequenas doses desses alimentos combinados
reduzem o risco de obesidade e afastam o diabete do tipo 2.
Para comprovar a façanha, os pesquisadores, primeiro, ofereceram durante dois
meses uma alimentação rica em gordura saturada — aquela encontrada em carnes
gordas, sorvete, manteiga e em muitos outros produtos industrializados — a
ratos e camundongos. "Esse modelo de dieta gerou uma inflamação no
hipotálamo, região do cérebro que é responsável por controlar a necessidade de
comer", conta Juliana Moraes, bióloga e autora do estudo. E o resultado de
uma pane dessas é desastroso. Afinal, depois de uma bela pratada, o sinal de
saciedade não é percebido e, assim, a comilança segue desenfreada. Nas cobaias,
além de catapultar a obesidade, a situação abriu caminho para que o diabete se
instalasse.
Diante disso, os cientistas se perguntaram: será que as gorduras insaturadas,
como o ômega-3 do óleo de linhaça e o ômega-9 do azeite de oliva, seriam
capazes de combater a famigerada inflamação e reverter o caos? Para chegar à
resposta, Juliana e o nutricionista Dennys Cintra, seu parceiro no trabalho,
estimularam os animais a consumir diferentes porções de ambos os óleos por
outros dois meses.
Para preservar as gorduras boas
do duo oleoso, evite usá-lo em frituras
"Estipulamos que 35% da alimentação total seria formada por gorduras.
Então, dividimos os animais em três grupos e demos a cada um diferentes doses
dos ômegas", descreve Juliana. No final, notou-se uma melhora no estado
inflamatório do hipotálamo, permitindo que os roedores percebessem a sensação
de barriga cheia. Como consequência, eles passaram a comer menos e, viva!, não
acumularam quilos extras. Para a história ficar ainda mais apetitosa, houve diminuição
nas taxas de açúcar correndo pelo sangue, provavelmente por um aumento da
sensibilidade à insulina, o que favoreceu o controle do diabete.
E, para quem acha que é preciso se empanturrar de azeite e óleo de linhaça para
obter os benefícios, um aviso: os melhores efeitos foram registrados na turma
que ganhou pequenas porções, facilmente conquistadas no prato — uma única
colher de sopa de cada óleo estaria de bom tamanho. A colherada, no entanto,
escoou pela culatra no grupo que recebeu uma suplementação bem mais do que
caprichada. "Apesar de benéficas, essas gorduras são bastante calóricas.
Portanto, devem ser consumidas com moderação", informa Louise Saliba,
professora de nutrição da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
Ainda cabe ressaltar que a farinha da linhaça disponibiliza teores generosos de
ômega-3 e, por isso, pode ser uma opção ao óleo da semente. "O correto é
comprar os grãos e triturá-los em casa para garantir o total aproveitamento das
gorduras do bem, que podem se perder durante o processo de industrialização do
farelo", informa a nutricionista Camila Janielle, do Hotel-Escola
Senac, em Campos do Jordão, no interior de São Paulo. Se não conseguir consumir
todo o conteúdo de uma só vez, outro macete para preservar suas propriedades:
"Armazene-o em um recipiente fechado dentro da geladeira", ensina
Roberta Thys, professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Coração
blindado
Ninguém precisa esquentar a cabeça caso não seja possível usar os dois óleos
juntinhos, no mesmo dia — o que até seria o ideal, mas... Individualmente, o
duo também bate um bolão. Segundo um estudo recente do grupo EurOlive, formado
por instituições de cinco países europeus, os polifenois do azeite de oliva
ajudam a frear a oxidação do colesterol LDL, considerado perigoso. Quando isso
ocorre, reduz-se o risco de placas de gordura na parede dos vasos, a temida
aterosclerose — doença por trás de encrencas como o infarto. A conclusão veio à
tona depois de os cientistas estimularem 200 homens a consumir o óleo dourado
com diferentes concentrações de polifenois ao longo de três semanas.
É verdade que a dieta mediterrânea, da qual o azeite é um dos principais
componentes, há tempos é reconhecida por sua incrível capacidade de proteger o
coração. Só que o seu papel específico nessa empreitada não era consenso até
agora. "Daí a importância dessa pesquisa. Trata-se de um bom pontapé
inicial para esclarecer, de vez, as vantagens de incluir o azeite na dieta",
avalia Heno Lopes, cardiologista do Instituto do Coração de São Paulo, o Incor.
Segundo Louise Saliba, o óleo da azeitona ainda guarda outros trunfos.
"Ele estimula a dilatação dos vasos sanguíneos e, assim, reduz a pressão
arterial. Também resguarda o DNA contra danos oxidativos, evitando
tumores", conta. A dica para usufruir de tanta benesse é regar saladas,
arroz, vegetais cozidos, pães e torradas com 2 a 4 colheres de sopa do alimento
por dia. "O ideal é usá-lo frio, já que o calor degrada, parcial ou
totalmente, os compostos antioxidantes", avisa a nutricionista da PUC do
Paraná.
O médico nutrólogo e presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, Durval
Ribas Filho, endossa a utilização do azeite para banhar o organismo de saúde,
mas alerta: "Estamos ingerindo mais ômega-6 e ômega-9 e pouco ômega-3. E a
desproporção pode trazer prejuízos". Ele lembra que uma investigação
japonesa já mostrou um aumento no risco de câncer gástrico por causa do
desequilíbrio. Para não cair na cilada, é só investir vez ou outra em peixes de
água fria, como salmão e atum, e, é claro, na linhaça.
Efeito chapa-barriga
Consumida desde o antigo Egito, hoje a semente do linho é analisada a fundo em
laboratórios no mundo inteiro. E não só em forma de óleo, como naquele estudo
da Unicamp. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a estrela da vez é a
farinha, usada no projeto de mestrado que a nutricionista Wânia Monteiro
defenderá agora em março. A pesquisadora recrutou mulheres com grau de
obesidade 2 com a finalidade de observar qual tipo de farinha — marrom, marrom
desengordurada ou dourada — seria mais vantajoso. Para isso, as voluntárias
receberam orientação nutricional e foram divididas em quatro grupos. Desse
total, três ganharam 30 gramas de uma das versões, o correspondente a 4
colheres de sopa, para ingerir pela manhã. "A intenção era proporcionar
saciedade para reduzir o tamanho dos pratos ao longo do dia", esclarece
Wânia.
A balança deixou claro que, em dois meses, todo mundo emagreceu. Porém, na
turma que abocanhou o farelo marrom os resultados foram mais expressivos: além
de enxugarem cerca de 4 quilos, as voluntárias viram as taxas de massa gorda,
circunferência da cintura, pressão arterial sistólica, colesterol total e
triglicerídeos despencarem. A maior quantidade de fibras na linhaça escura é,
ao que tudo indica, a responsável por tantas proezas. "Esse nutriente
também é importante para acelerar o trânsito intestinal", lembra Claudia
Cozer, endocrinologista e diretora da Associação Brasileira para o Estudo da
Obesidade e da Síndrome Metabólica.
Mas aqueles que preferem a linhaça dourada não precisam deixá-la no limbo.
Afinal, ela também possui propriedades nutricionais e terapêuticas muito
interessantes. Quando o quesito é a presença do famoso ômega-3, por exemplo, é
ela quem sai ganhando. O mesmo ocorre em relação às lignanas. "Essas
substâncias são muito semelhantes ao estrogênio, tanto por causa da estrutura
química como pela função. Dessa forma, podem ser úteis para minimizar os
sintomas da menopausa, período em que os níveis desse hormônio feminino sofrem
uma queda natural", explica Roberta Thys, da UFRGS. Como se vê, tem
benefícios para todos os gostos — e necessidades.
Tipos de azeite:
Extravirgem
É obtido na primeira prensa das azeitonas, sem uso de calor nem produtos
químicos. Portanto, abriga a maior parte dos compostos benéficos. Sem contar
que é a versão menos ácida.
Virgem
Ele é produzido por meio da segunda prensa ou centrifugação. Depois, vem o
processo de refinamento. Pelo caminho, perde parte das substâncias tão
desejadas.
Com
óleo de soja
A mistura resulta em um produto bem atraente para o bolso, mas nada
interessante para a saúde. Afinal, é pobre nos compostos ativos que fazem a
fama do azeite extravirgem.
- Escolha o produto armazenado em lata ou vidro
escuro, que evitam perdas nutricionais;
- Guarde-o longe da luz e também do calor;
- Depois de abri-lo, não leve muito tempo para consumir.
A
linhaça em três versões:
Semente
A casca é durinha, então mastigue bem para chegar aos famosos compostos. Antes,
asse a semente em fogo baixo por cerca de dez minutos para eliminar fatores
antinutricionais, que prejudicam a absorção de outros nutrientes.
Farinha
Pode entrar no lugar da farinha de trigo em diversas receitas, além de ser
misturada a leite, iogurtes e saladas. Por ser livre de glúten, é uma boa opção
para celíacos.
Óleo
É bom substituto do azeite, só que o gosto é mais amargo. Não deve ir ao fogo,
porque as gorduras benéficas são facilmente oxidadas. Quem está atrás das
fibras da linhaça deve investir na semente ou na farinha.